sábado, 18 de janeiro de 2014

O Condicionamento Operante e o Big Brother Brasil

Apresentar uma comparação entre o programa Big Brother Brasil (BBB) com base na Teoria do Condicionamento Operante, desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner que propôs o que conhecemos por behaviorismo radical, parece ser uma idéia surreal, contudo, a idéia principal dessa formulação de conceito é alertar que nem sempre um programa dito fútil foge a realidade, podendo oferecer boas oportunidades de análise.
            Tudo começa com a idéia original de condicionamento operante proposta por Skinner, que pode ser resumida da seguinte forma: os organismos agem sobre o ambiente e ao fazê-lo provocam transformações que podem alterar a probabilidade futura de ocorrência deste comportamento neste ambiente. Quando a probabilidade do comportamento é aumentada pela sua conseqüência, chamados a mesma de reforçadora que é um estímulo liberado, como conseqüência para uma complexa seqüência de comportamentos, que faz com que tais comportamentos tenham uma alta chance de se repetirem.
            Pensando nisso, podemos perceber claramente que o BBB pode ser entendido como uma grande Caixa de Condicionamento Operante, vulgarmente conhecida como Caixa de Skinner, já que o mesmo a criou para realizar experimentos com animais, porém convém ressaltar que segundo a afirmação behaviorista radical os mesmos princípios que atuam sobre os comportamentos de espécies mais simples, também atuam sobre comportamento humano em toda a sua complexidade. Os comportamentos dentro da caixa são controlados por um pesquisador através de procedimentos externos à realidade vivida ali dentro, dessa forma cada participante, dentro da “caixa” do BBB, também se comportam, e às vezes seus comportamentos são reforçados ou punidos, seja pelos colegas participantes, pelo apresentador ou pelo público.
            Apesar de tudo parecer muito complicado, a explicação é simples: o BBB modifica o comportamento dos indivíduos ali confinados, a história e a intensidade de interação com aquele ambiente, parecem afetar significativamente o modo de se comportar dos participantes. Isso coloca em xeque a idéia de que temos personalidades que nos fazem ser sempre as mesmas pessoas, independentemente dos ambientes onde estamos. Para Skinner e seus “seguidores”, o ambiente onde estamos modela o modo como nos comportamos. Logo, quando mudamos de ambiente, apesar da história anterior de interações interferir diretamente neste processo, também mudamos o nosso “modo de ser”, isto é, nossos comportamentos.
            Imagine um BBB onde nada modificasse o ambiente, seria um programa estático, onde a freqüência geral de comportamentos seria baixíssima, bem como a audiência. Nós operamos sobre o ambiente o tempo todo e isso está diretamente ligado à nossa sobrevivência. A “sobrevivência” na casa-“caixa” do BBB ilustra bem o mundo aqui fora, onde também agimos sempre sobre o ambiente e ao longo do tempo alguns comportamentos vão desaparecendo enquanto outros se refinam e aumentam de freqüência.
            O que realmente importa é que o BBB parece ilustrar, um dos principais pontos da teoria de Skinner sobre o comportamento operante, o prêmio final é reforçador, mas para que esta grande conseqüência seja liberada, é necessário passar por uma história de aprendizagem, onde muitos outros comportamentos serão reforçados gradativamente. Os “experimentadores” são muitos, e um simples deslize pode ser duramente punido. Entender o outro lado da “caixa”, isto é, o público, é outra tarefa complexa, pois qual é a lógica através da qual se decide punir ou reforçar os comportamentos de cada participante? Por certo, a própria história de interação de cada grupo de expectadores também interfere nesta escolha. Resumidamente, o BBB reflete bem uma sociedade mutável, dependendo das regras estabelecidas, que dizem o que será reforçado ou punido, os participantes podem se tornar mais ou menos agressivo, mais ou menos competitivo, e por aí vai. Do mesmo modo, as regras estabelecidas para que nos comportemos como cidadãos aqui fora, na “caixa maior”, também faz toda a diferença. Isso nos faz pensar sobre as leis que temos e porque ainda não conseguimos resolver problemas em grande escala, como a violência e a corrupção em todos os níveis. Basta o “empurrão certo” na hora certa, tudo é possível quando se tem um milhão e meio de reais em jogo. Aqui fora, dificilmente um milhão, mas há sempre “algo em jogo”.